Empresa: natureza, objetivo, função, objeto e responsabilidade social

Uma empresa é uma instituição tipicamente social. Na verdade, a maioria absoluta das empresas é uma sociedade de algum tipo (envolvendo mais de um proprietário – em geral, pelo menos dois sócios; numa sociedade anônima, até milhares de acionistas). Uma empresa é forçosamente criada em uma sociedade específica e tem sede em um território politicamente organizado (ou seja, uma nação). Sua atividade é regulada pelas leis da nação em que foi criada. Se ela precisa ou deseja agir também a partir de outras nações, a empresa precisa ter presença nelas através de filial ou subsidiária, que passa a ser regida também pelas leis da nação em que foi estabelecida.

Mas há vários tipos de instituição ou sociedade que preenchem os requisitos descritos no parágrafo anterior. Para entender como a empresa se diferencia de outras instituições ou sociedades congêneres (que pertencem ao mesmo genus), é preciso explicitar a sua espécie (species). Isso se faz declinando o objetivo, ou a finalidade, da instituição ou sociedade que se caracteriza como empresa.

O objetivo de uma empresa (qualquer que seja seu objeto), é gerar lucro para seus proprietários ou acionistas. É isso que a diferencia de outras organizações existentes na sociedade, como as governamentais e as não-governamentais mas também não-empresariais (hoje chamadas inadequadamente de Organizações Não-Governamentais, pois empresas também são, stricto sensu, organizações não-governamentais).

A função da empresa também é tipicamente social (qualquer que seja o seu objeto). A forma pela qual a empresa gera lucro para seus proprietários e acionistas é atendendo, através dos bens que manufatura ou dos serviços que presta, às necessidades e aos desejos das pessoas e instituições que fazem parte de um determinado mercado (hoje os mercados nacionais estando a convergir para um só mercado, global). O fato de a finalidade de uma empresa ser a geração de lucro para seus proprietários e acionistas não impede, portanto, que a empresa, além de ser, pela sua natureza, uma instituição social, exerça uma função social, atendendo a necessidades e desejos existentes no mercado.

Além de diretamente atender a necessidades e desejos das pessoas e demais instituições de uma nação, uma empresa gera empregos e paga impostos, assim contribuindo, de forma indireta, para o desenvolvimento econômico da nação.

Tão ou mais importante, a empresa pode ter, como instituição social que é, valores, posturas e condutas que definem o seu posicionamento na sociedade e a visão que tem de sua parcela de responsabilidade pelo desenvolvimento econômico, político e social (principalmente este) daquela sociedade.

O objeto de uma empresa pode ser produzir bens ou prestar serviços. Hoje em dia se costuma falar em produtos de uma empresa de modo a englobar tanto os bens que ela produz como os serviços que presta. A comercialização dos bens que uma empresa produz é uma forma de prestação de serviços.

Se uma empresa extrai minerais do subsolo, ou cultiva a terra, ou cria animais, ou se ela constroi prédios ou fabrica roupas, alimentos ou armamentos, ou se ela, ainda, presta serviços de coleta de lixo, ou na área de finanças, educação ou saúde, é irrelevante para a função social que ela exerce na sociedade. A função social primária da empresa é, como vimos, gerar lucro para seus proprietários e acionistas, remunerando o capital que investiram. Isso ela consegue atendendo às necessidades e aos desejos das pessoas e das outras instituições que constituem o mercado. Esse atendimento faz parte de sua função social primária, pois é assim que ela obtem a receita necessária para a geração de lucros. Pode-se dizer que cada um que compra um produto (bem ou serviço) de uma empresa dá a ela um voto que vai representar o seu sucesso empresarial.

O sub-produto imediato da atividade de uma empresa é, como vimos, gerar empregos (e, assim, contribuir com a população através do pagamento de salários) e contribuir com o governo através do pagamento de encargos e impostos.

Isso tudo ela faz independentemente de seu objeto. Uma empresa de armamentos é, nesses aspectos, indiferenciável de uma empresa que atua como hospital ou como escola. Empresas que fabricam cigarros e bebidas alcoólicas também produzem lucro, geram empregos e pagam impostos.

Também independe de seu objeto o fato de uma empresa ter ou não uma visão social, um posicionamento que caracteriza uma responsabilidade social corporativa significativa, ou acima da média. Empresas que fabricam cigarros, bebidas alcoólicas e armamentos podem muito bem ter responsabilidade social corporativa mais significativa e impactante do que empresas que atuam diretamente na área da educação e da saúde – e isso a despeito do fato de que seus produtos podem, se usados de forma irresponsável, prejudicar a saúde ou mesmo matar.

Quando se fala em responsabilidade social corporativa não se está falando de filantropia. Empresas, tanto quanto os indivíduos, podem e, tendo possibilidade, devem fazer filantropia – dar dinheiro ou outros recursos para pessoas necessitadas, de forma direta ou indireta. Quando se fala em responsabilidade social corporativa, porém, está se falando em investimento na melhoria do nível de desenvolvimento humano (especialmente social) da população. Esse investimento, como qualquer outro, precisa fazer sentido do ponto de vista do negócio.

Cito, para encerrar, um exemplo.

Uma empresa como a Microsoft faz filantropia (não confundir a filantropia da empresa com a que seu fundador faz, com sua mulher, através da Fundação Bill e Melinda Gates – aqui se trata de filantropia feita com o dinheiro pessoal dos dois, não da empresa). Mas ela também investe na área social, em especial na educação. Sua iniciativa global “Partners in Learning”, lançada em 2003, e voltada para a melhoria da qualidade da educação pública, especialmente em países em desenvolvimento, já recebeu cerca de 500 milhões de dólares da empresa desde seu lançamento.

Isso não é filantropia: é investimento “that makes very good business sense”. Por quê? Por várias razões.

Em primeiro lugar, uma empresa como a Microsoft, embora fabrique vários bens e preste serviços diversos ao mercado, tem, como core business, o desenvolvimento e a comercialização de software. Software é um produto intelectualmente sofisticado. Analfabetos raramente são usuários desse tipo de produto. Pessoas com falhas sérias em sua educação dificilmente serão usuários avançados e sofisticados do tipo de software que a Microsoft produz. Uma nação severamente subdesenvolvida não oferece um mercado para a Microsoft. Em casos assim, o investimento voltado para a melhoria da qualidade da educação pública de um país desse tipo é um investimento voltado para a criação de um mercado futuro para a empresa. Esse investimento, se bem feito, tende a produzir resultados a longo prazo. Produzir resultados, no caso, é gerar lucros.

Em segundo lugar, uma empresa como a Microsoft precisa de funcionários com boa formação intelectual nos países em que vai atuar. Se o sistema educacional desses países é ruim, ela precisará contratar fornecedores que melhorem a formação de seus empregados. No curto prazo, essa pode ser a única solução. Mas no longo prazo essa é uma solução ineficaz e ineficiente. O investimento voltado para a melhoria da qualidade da educação pública de um país desse tipo é, portanto, um investimento voltado para a preparação e capacitação de futuros empregados da empresa. Faz sentido, do ponto de vista do negócio.

Em terceiro lugar, o modelo de negócio de uma empresa como a Microsoft envolve terceirizações através de parcerias. A Microsoft não vende seu software diretamente no varejo (exceto, mais recentemente, em raros casos, através do seu site), não oferece treinamento e suporte diretamente aos clientes (e nem mesmo aos seus empregados), não presta assessoria a governos, empresas e outras instituições diretamente. Em todos esses casos, ela recorre a parceiros, que agem como seus fornecedores. Se a qualidade das empresas ou dos indivíduos que funcionam como parceiros e prepostos deixa a desejar, o serviço prestado ao mercado pela Microsoft deixará a desejar também. Assim sendo, vale a pena investir na melhoria da qualidade da educação pública de um país com essas características. Esse investimento redunda na melhoria da qualidade dos serviços que (indiretamente) a Microsoft presta aos seus clientes.

É isso, por enquanto.

Em São Paulo, 15 de Novembro de 2010

  1. Hello professor Chaves, I was delighted to read your blog. I love your views about education. I’ve started a blog too, just some curiosities about life in England. Something very light of course. Take a look if you can. katia Quinn xx

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  2. Texto simples, coerente de fácilà entendimento. Obrigada por sua contribuição a minha pesquisa. Vou fazer prova domingo (concurso público) e tirei muitas dúvidas.
    Francisca Nascimento – Belém-Pará

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  3. Pingback: Os Views dos Meus Artigos Aqui, « Liberal Space: Blog de Eduardo Chaves

  4. Prezado professor Eduardo Chaves. Gostei do artigo, mas permita-me fazer uma reflexão. Discuto com meu alunos de administração que atualmente muitas organizações pensam somente no lucro, acredito que o lucro é uma consequência, pois poderá ser efêmero. Analiso que algumas organizações que tiveram como objetivo somente o lucro desapareceram no mercado. Na visão positiva é possível constatar o exemplo de Sam Walton, fundador do Wal-Mart : “O cliente é tão importante que pode demitir todo mundo em uma empresa, desde o presidente até o mais humilde funcionário. Basta fazer uma única coisa: não comprar.” Quando a empresa consegue avaliar a satisfação do cliente e satisfazê-lo terá lucros, mas o objetivo não foi o lucro e sim a satisfação que posteriormente gerou resultados positivos. Outro exemplo é da TAM que buscou uma política de valorização do cliente e tornou-se uma empresa de sucesso. Portanto acredito que a organização deve ter como objetivo a sustentabilidade em negócios e analisar quais são os quesitos imprescindíveis para a sua sobrevivência no mercado.

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