Idéias, pássaros e gaiolas

[No que segue, tomarei por empréstimo de Rubem Alves uma importante metáfora – que ele apresentou, inicialmente, no livrinho A Menina e o Pássaro Encantado e que, mais recentemente, reiterou na Apresentação de seu livro (esse um “livrão”) Religião e Repressão (que é uma re-edição do livro Protestantismo e Repressão). Aqui fica o crédito, Rubem – e o agradecimento… Transcrevo, no final deste post, a Apresentação que o próprio Rubem faz de Protestantismo e Repressão.]

Pássaros têm asas para que possam voar livremente – não para que fiquem presos em gaiolas.

Seres humanos têm mentes para que possam pensar livremente – não para que fiquem presos em gaiolas de idéias.

O dogmatismo, sobre o qual já escrevi quatro posts aqui neste space recentemente (vide referências adiante), é uma tentativa de engaiolar o pensamento humano, de prender-lhe entre grades que ele não deve transpor, e, assim, de limitar-lhe ou mesmo de totalmente cercear-lhe o vôo.

Pássaros em gaiolas voam – mas seu vôo é limitado pelas grades das gaiolas em que vivem. Pássaros que nascem em gaiolas (vale dizer, em cativeiro) podem até imaginar (se é que pássaros imaginam) que são realmente livres para voar. Mas não são. A pior prisão é aquela em que nascemos e em que sempre vivemos, porque não nos damos conta de que estamos aprisionados.

Os dogmáticos pensam – mas seu pensamento é limitado pelas premissas que definem as grades das gaiolas de idéias que os mantêm cativos.

Pássaros em cativeiros têm pouca chance de escapar das gaiolas em que se encontram. Às vezes se acostumam tanto às suas gaiolas que, se forem libertos, voam um pouco e, depois, retornam para serem engaiolados de novo…

Seres humanos têm capacidade de abrir as portas de suas gaiolas mentais e delas sair. Mas não é fácil exercer essa capacidade. Muitos, se abrem as portas de suas gaiolas mentais e decidem sair, muitas vezes dão apenas vôos rasteiros pelas cercanias das gaiolas, e para elas retornam, não ousando realmente alçar vôo para mais longe, para terras desconhecidas… São como os pássaros que se desacostumaram de voar livremente.

E isso é triste. Porque é um desperdício da maior capacidade que o ser humano possui: a capacidade de pensar.

—–

Eis o que disse Rubem Alves na Apresentação do seu livro Religião e Repressão:

“Deus — não importa quem ele ou ela seja — nos criou pássaros. Perdidas as nossas asas, o desejo do vôo permanece na alma como sentimento puro, nostalgia, sobre a qual somente os poetas podem falar — porque eles têm a graça de falar sem aprisionar.

A essa nostalgia do vôo, a esse espanto perante o mistério da vida, a essa capacidade de se comover diante da beleza dou o nome de sentimento religioso. O poeta William Blake, um místico sem religião, o descreveu como Ver um Mundo num Grão de Areia e um Céu numa Flor Silvestre, Ter o Infinito na palma da sua mão e a Eternidade numa hora…. E esse sentimento pode acontecer mesmo naqueles que não acreditam em Deus. Pois o que é acreditar em Deus? É ter idéias sobre Deus em nossa cabeça.

Mas os textos sagrados desprezam o acreditar em Deus. O apóstolo Tiago observa: Tu crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios acreditam e estremecem ao ouvir o seu nome…. O sentimento religioso é a cigarra que arrebenta a sua casca dura e voa para o amor.

É como o vento — nós o sentimos quando ele vem, mas não é possível possuí-lo. Quem o tem vive a dolorosa experiência de não possuir o vôo. Eu me sinto profundamente religioso e tenho os místicos e os poetas como meus mestres. As religiões, ao contrário, nascem do desejo humano de possuir o vôo dos pássaros.

Para isso constroem gaiolas. Gaiolas feitas com palavras. E é dessa pretensão que surge a intolerância, a arrogância, o dogmatismo, as perseguições e os mais sinistros tipos de fanatismo. As religiões são as cascas vazias que as cigarras deixam sobre as árvores.

Este livro não é sobre o sentimento religioso, os pássaros em vôo. Sobre o sentimento religioso já escrevi muito, em outros livros. É sobre as gaiolas. Na sua versão original o seu nome era Protestantismo e Repressão — não a repressão policial, mas a repressão sutil das grades de idéias que aprisionam o pássaro. Agora, ao prepará-lo para uma nova edição, resolvi mudar o título para Religião e Repressão porque aquilo que disse sobre o protestantismo, creio, vale para todas as religiões que constroem gaiolas para aprisionar o vôo dos pássaros.“

Transcrito de http://www.erdos.com.br/detalhe_pro2.php?id=3615

—–

Vide, sobre esse assunto, os seguintes posts meus aqui neste space:

“A verdade: contra o ceticismo, o relativismo, e o dogmatismo – 2”, de 20/10/2008

“A verdade: contra o ceticismo, o relativismo, e o dogmatismo – 1, de 11/10/2008

“O livre pensar”, de 25/08/2008

“A posse e a busca da verdade”, de 24/08/2008.

Em São Paulo, 21 de Outubro de 2008

  1.  
    Meu caríssimo Eduardo,
     
    Faço um esforço danado _e não me envergonho disso_para compreender os diálogos travados em "alguns" posts…
    Mas esse último,Idéias,pássaros e gaiolas,me fizeram dar ótimas gargalhadas!.Gargalhadas de sentimento bom,entende?
    Não pude deixar de imaginar,os "criadores" se dogmas chutando os "sarcófagos"rsrrsrs.Para dizer a verdade,penso que bem
    sabiam e sabem os efeitos dos dógmas,por isso,continuam arrancando os cabelos na tentativa de dominar…os pássaros.
    Chaves abrem cadeados,rsrsr
     
    Abração!!
        

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  2. A metáfora de Rubem Alves é muito oportuna e ganha significado especial ao ser postada no seu espaço.Por mais que, no cristianismo, a história seja a história da salvação é importante distinguir Deus das religiões e de suas organizações cristalizadas. As religiões são a casca vazia que as cigarras abandonam, cascas que, no entanto, provisoriamente, fizeram parte do se corpo, serviram-lhe de estrutura e, de certa forma, contribuiram para que aprendessem a voar. Ensinar a  (voar) pensar…não será este o verdadeiro papel das religiões?

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  3. Pingback: Os Views dos Meus Artigos Aqui, « Liberal Space: Blog de Eduardo Chaves

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